16 de maio de 2012

Na sala de espera...

Entrei,
Sentei-me e folhei um livro,
Embrenhei-me na leitura e esqueci-me
de que esperava.
À minha volta ouvia como que
Em longínquas paragens um marulhar.
(cheiro de tabaco)
Pousei o livro e quedei-me a escutar.
(cusquice!!)
À direita uma mãe contava
Os pormenores duma doença,
Noutro lado outra que falava
Dos exames dos filhos e eu sei lá...
Só falavam e a cabei por pensar.
Afinal eu é que estava errado,
Pois que ali aproveitavam esta espera
Para trocarem umas palavras.
E assim passavam aquelas horas de espera.
Da espera enfadonha que não mais
Acabava, e eu fechado, isolado, só.
Ouvia e analisava.
De todos os doentes que ali estavam
Só eu metia dó, só eu perdi a fala....
E quantos amigos dissimulei
À espera, naquela sala.


10 de abril de 2012

Serás sempre criança

Rua fora lá vais,
Rapidamente apressada
E como te atrais
A olhar a criançada.

Nostalgia enfadonha
Que te deixa combalida,
Que te deixa com vergonha
Da tua vida perdida.

Tens rasgos de memória
De um passado que te afronta
E perdeste-te na história
Como uma criança tonta.

Mas não percas a fé
Se criança já não és,
Mesmo o ínfimo clichet
Vai e vem com as marés.

Assim poderás continuar
Sem perder a esperança.
Com o passado a pairar
Serás sempre criança!


1 de fevereiro de 2012

Ganho cor


Irreverentes corpos,
Diabolicamente certos,
Retornam em tons cinzentos
Aos lugares que são seus.
E tristemente
Coçam o rosto cansado,
Que dia a dia vai-se desgastando.
Múltiplos suspiros
Ecoam no regresso laboral,
Que enchem os ouvidos de
Repetições saturantes.
«Não era como dantes!»
Queixa-se a senhora curvada
Pelo ouro que suporta.
Mas queixar ironicamente ao outro,
Provoca comichão.
Cocei-me...
Cocei-me...
Cocei-me...
E lentamente repelo-me.
Estou cinzento!

Dor suada pelo piano
Que chora e devora
O balcão atafulhado de cinzento.
Mas que lamento...
Triste e metódico
Comprazo a barba
E cinicamente falando,
Sentado num banco,
Enamoro pessoas que
Entram e ficam
E ganho cor...



3 de dezembro de 2011

Escrita Inibida

Ontem escreveria poesia,
Mas o carvão gerou discórdia.
É como dita a profecia;
Lápis insano que rejeita concórdia.

As linhas gastas quebraram
E os dedos trocaram sentidos,
Que loucos poetas amaram...
Pobres poetas sempre perdidos.

Pobre escrita insaciante
Do louco que nada escreve.
Caminha triste e errante
Na vida que nunca teve.

Mas sorri quando me vê.
Sorri e acena p'ra mim,
Sorriso nitidamente infeliz.
Não sei qual o porquê...
Da sua escrita ter tido um fim,
Se a amava loucamente feliz.

10 de novembro de 2011

Querer erréneo

Persegui-te outrora,
Tinhas um vestido azul.
(Aquele que tanto gosto)
Não sei se era da lua,
Das estrelas,
Da noite ou
Do tempo.
Mas naquele fingimento
De admirar quem não me quer,
Senti um lamento.

E num etéreo prazer
Tive um pensamento:
Poderá o amor
No seu clamor
Dizer que ama com dor,
O querer usurpador?

Gritei!
Grito mudo!
E deludo a formusura
Que perdura,
Mas obtura
Ao de leve a curvatura
De andares
A olhar p'ra baixo.

22 de outubro de 2011

Conformação...


Se me encontro deprimido,
escrevo. Escrevo destroçado,
por viver amargurado
e em sossego inibido.

... Ó triste! O teu amargor
Quase em ti se desvanece
E tudo que te merece
Se desfaz em mágoa, em dor!

Por vezes queria ser forte,
Por outras desejo a morte.
Vendo nisso a solução.

Mas contenho meus anceios,
disfarço meus desvaneios...
Procuro conformação...!

13 de julho de 2011

Desafogo

Às vezes eu queria entender
o porquê deste viver amargurado.
É como tomar uma chávena de café
quente, que cheira bem
mas de sabor muito amargoso. Só posso ver
em todo esta ardilosa comédia,
um misto de insegurança e cobardia.
De que têm medo? O que há para além de toda a injustiça
e crueldade, em que se deixam envolver?
Fazem-me pena
aqueles, que vivem parados no tempo,
que deixam corroer as entranhas
dos mais míseros sentimentos.
Pobres deles que não amam
e nem querem ser amados.
Almas tacanhas,
denegridas sem o mínimo desejo
de ver mais além, de ultrapassar essa podridão
De que se acham corrompidos.

Amor revolto

Revoltas-te com o meu silêncio,
Que te sufoca com intensidade.
Esperas com alguma ansiedade
O som que tanto almejas.

Meu reflexo em ti permanece,
Revejo em teus olhos espelhados.
Teus gestos fortemente enfeitiçados
Por um passado que bem desejas.

Pois o que foi, não volta a ser.
Sumi, esquece, morri p’ra ti.
Tempos antigos me envolvi
Nessas palavras que cotejas.

Corações apaixonados, incontrolados,
Trituram tua inquietude, que outrora
Era calma por dentro e por fora.

Eu amei-te num passado, bem presente,
Sem pensar no tempo, sem pensar na hora,
Amei-te intensamente, desde o nascer da bela aurora.


30 de junho de 2011

Valsa Colorida

Eternas figurinhas,
Leves como plumas,
Belas como flores.
Essa valsa linda,
Dançai, dançai!

Pousei os meus olhos
Naquela pintura,
E meditei.
Quem foi o pintor
Que assim vos deu vida?
Donde recebeu
A inspiração?
Singela moldura,
De beleza e cor
Que me fez lembrar,
O Infinito.

E me fez sonhar!
Sonho irreal,
Maravilha infinda.
Belas figurinhas,
Muito docemente,
Dançai… dançai….
E continuai
Essa valsa linda
Eternamente…

1 de junho de 2011

Tempo que passa...

Os dias não passam.
A água estagnou,
A vida a parar
De negro vestida.
E o homem sentado
No tempo que passa,
Feliz esvoaça,
Dormindo acordado.

Vive embriagado,
Na droga embebido.
E como o leão,
Lança o seu rugido:
Eu sou o senhor!
Preciso mandar!
Vivo para impor,
Adoro matar
A esperança que nasce
Noutro coração
Que chama de irmão.

Mas não sente assim.
Palavras em vão,
Que vão, e que passa.
E o homem esvoaça
No tempo sentado.
Implanta a discórdia
Num ser magoado…
Nem tenta a concórdia,
Pois vive parado!

 
tempopassa